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Sealand – Uma Rendição Típica da Guarnição

David Blizzard de Sealand

conta a história resumida de uma rendição típica da guarnição de segurança e parte da ação que ocorre nos bastidores.

Cais de Ha’Penny em Harwich, 04.30, domingo, 25 de setembro de 2011. A atmosfera é intrigante, naturalmente que este é um local normalmente muito movimentado, mas não a esta hora. Reina um silêncio sepulcral, à exceção da brisa gélida de nordeste e do ocasional marulhar suave das águas nos paredões.

Um estranho fortuito passa sorrateiramente a pé, enquanto espero aguardo pela azáfama que será a próxima troca de tripulação de Sealand. Os cafés e as bancas de peixe fresco esperam pelo amanhecer de outro dia de trabalho. Uns quantos passos apenas pelo passadiço flutuante revelam uma mão-cheia de iates impressionantes, estando os seus skippers ainda num sono profundo (ou num coma pós-sábado à noite).
Por trás de mim, um hotel mostra apenas um quarto com luz no piso superior com vista para o mar, presumidamente, de outro madrugador.

Em breve, a paz era rompida pelo estrondear de um veículo a grande velocidade no caminho do cais. Não eram precisas apresentações, em segundos, Michael Barrington de Sealand posicionava habilmente de marcha atrás a sua carrinha no exíguo cais. Mantive-me quieto, ele já tinha feito isto milhões de vezes e certamente dispensava qualquer ajuda minha!
Após rápidas saudações, seguiu-se a atividade bem planeada mas, não obstante, repleta de bulício, que foi descarregar da carrinha todos os géneros de materiais sobre a apertada plataforma no cais. Outro estranho passou e, sem demonstrar sequer a mais pequena surpresa, deu-nos os bons-dias. A descarga da carrinha foi feita de tal maneira que mais parecia o alimentar frenético de pazadas de carvão de uma máquina a vapor na era da revolução industrial.

E, assim, as mercadorias foram descarregadas num ápice e Michael preocupava-se com o barco de apoio que tardava em chegar. Contactou Sealand por rádio a partir do seu veículo e a resposta imediata e clara veio de um membro da equipa chamado Joe, confirmando as condições de mar e atmosféricas junto à fortaleza, a quase sete milhas náuticas de distância, e o facto de que tudo estava preparado para a nossa receção. Mas o barco… esse, nem vê-lo.

Enquanto Michael estacionava a sua carrinha, reparei nos seus mantimentos de comida, equipamentos eletrónicos, software, roupas e outros produtos de mercearia.

Com um meneio apressado, o ávido Sealander prontamente regressava ao longo do paredão para organizar e transferir os seus pertences para o nível inferior do pontão flutuante, o qual abanava quase tanto como as embarcações amarradas ali com a ondulação fraca. Um vislumbre ao porto seguiu-se rapidamente pelo protesto breve de Michael sobre a amarração despeitada de alguns barcos que estorvava a nossa operação de carregamento.
Algumas caixas eram pesadas. Mas, logo, estava tudo a postos e uma chamada de telemóvel ao mestre da embarcação indicou que já estava perto, a caminho do local de embarque.
Mesmo em 2011, não consegui evitar olhar sobre o ombro para ver se alguma “autoridade” estava a espiar-nos. Os velhos hábitos da rádio pirata custam a morrer e tinha que recordar-me constantemente que já não eram os tempos dos transbordos arriscados para a Rádio Caroline, tão acostumado fiquei das inúmeras missões semelhantes a partir de locais como Whitstable para o navio Ross Revenge. Mas, não, as nossas atividades respeitavam totalmente a lei e eram inócuas aos olhos de qualquer governo!
O chocalhar do motor a gasóleo da pequena embarcação de pesca logo ecoou porto adentro com o mestre e o seu companheiro Chris a bordo, tendo este último estado em Sealand quando os geradores pegaram fogo no Verão de 2006.
Um armador sonolento apareceu no convés do seu iate aprumado para cumprimentar-nos, a nossa atividade laboriosa deve tê-lo acordado.
Seguiu-se um carregamento empenhado da embarcação com todos a ajudar. Durante este corrupio, Chris acorreu ao patamar superior junto aos cafés para descer a longa mangueira de combustível para abastecer a embarcação.

Pouco depois, já estávamos desamarrados do cais, e o mestre zarpava lentamente dentro do porto, para depois das suas imediações aumentar o regime da máquina e sulcar as águas livres e o céu cinzento do alvorecer.

Sucedeu-se mais uma operação de reordenação das mercadorias e dos pertences pessoais, sendo todos estes artigos acondicionados estrategicamente em três sacos gigantes reforçados que serviam originalmente para transportar pedras nas obras de defesa marítima. Estes sacos tinham olhais corpulentos que seriam engatados a um dos guinchos em Sealand à nossa chegada ao principado. Colocar os artigos mais frágeis na parte superior é a chave para o sucesso aqui. Um pequeno-almoço improvisado de pastéis da Cornualha foi devorado enquanto o nosso mestre fervia água no fogão para uma chávena de chá e mantinha o rumo para a cada vez mais próxima estrutura de metal que compõe Sealand.

Com o mar fraco a moderado e um vento favorável, o trajeto demorou apenas uma hora e vinte minutos.
Conforme nos aproximávamos do lado sul de Sealand, um dos residentes já estava pronto a receber-nos e o cabo de aço com o gancho já pairava a meia-altura para apanhar o primeiro saco que, entretanto, foi também preparado para a sua subida.
Com a redução do seguimento na aproximação, o efeito da ondulação tornou-se mais notável e ficar de pé não era fácil. Mas a habilidade aguçada do mestre na manobra da sua embarcação, combinada com o controlo milimétrico do guincho por Joe e o manuseamento dos sacos por Michael acabou por tornar o procedimento tão perfeito como qualquer outro.
Durante a ascensão para SealandE, assim, após as três cargas terem sido içadas sem eventualidades, chegava a vez dos passageiros. Uma cadeira de mastro nova em folha foi descida com diligência e subi primeiro com o intuito de fotografar a ascensão de Michael ao forte. Não obstante esta não ser certamente a primeira vez, estar dependurado num carrocel a mais de 20 metros sobre o Mar do Norte não deixou de descarregar uma dose de adrenalina no meu corpo; o chinfrim laborioso do motor a gasóleo que move o guincho atenuou o som do barco. E se o motor do guincho parar? E se os cabos da cadeira de mastro romperem? Estes e outros pensamentos paranoicos passam fulgurantes pela mente, por mais garantias que existam das outras experiências!
O tempo voou. Michael subiu. Foi baloiçado para a área de aterragem e o barco partiu rumo à Holanda para a pesca de caranguejo e camarão. Iriam voltar dentro de cinco horas após fundearem a algumas 15 milhas de Sealand. Este interregno era suficiente para Michael desfazer as malas, para Joe fazer as suas malas, para desfrutarmos de uma refeição quente restabelecedora e para um atualização sobre vários temas com os restantes residentes e membros da guarnição antes da partida. Michael também verificou o diário de bordo, onde são registadas atividades frequentes, condições meteorológicas e eventos análogos, assim como os equipamentos fundamentais e as áreas de segurança críticas, para garantir que quaisquer questões prementes pudessem ser colocadas aos homens que partiam. Desta vez não havia movimento de estrangeiros em Sealand e, por isso, os procedimentos de imigração e passaportes foram mínimos, muito embora, na minha qualidade de cidadão com dupla nacionalidade do Reino Unido e de Sealand, o meu passaporte do Reino Unido foi carimbado para a posteridade.

Prontamente tornou-se claro que o local não tinha mudado muito nos oito meses desde a minha última visita. Na realidade, a missão de melhoria contínua de Sealand fez-se notar no tempo decorrido, tanto a nível estético como em muitos outros aspetos. Os pisos de limpeza clínica que alojam os servidores informáticos continuavam imaculados. Um dos espaços no piso superior tinha recebido uma camada de tinta brilhante – aparentemente tinha sido usado corante alimentar para criar uma tonalidade suave de cor-de-rosa.

Pouco depois, eram 09 horas no horário de Verão britânico e o Sol emitia um matiz de luz sobre o horizonte em direção ao Reino Unido. A partir do heliporto de Sealand, era possível vislumbrar a Torre Naze em Walton e a inestética linha de prédios à beira-mar em Frinton. Olhando para outras direções, enormes porta-contentores do Extremo Oriente sulcavam os canais profundos de acesso aos portos de Harwich e Felixstowe; barcos de pesca e de recreio pontilhavam o oceano para os lados da Holanda e Dinamarca. O nosso barco desapareceu no horizonte. Ficaria aqui durante meses a fio?
Uma parte dos presentes calcorreava os pisos superior e inferior, alguns visivelmente ocupados com uma vasta variedade de materiais, maioritariamente associados aos trabalhos de melhoria e remodelação das instalações. Michael mostrou com prazer a sua sala de rádio completamente renovada, a qual também servia de quarto de dormir.
Mais uma vez, o tempo voou. Uma chamada para um dos residentes de Sealand feito pelo mestre da embarcação, alertou-nos para o facto de que deveria regressar em aproximadamente 30 minutos. Este aviso permitiu-nos realizar algumas verificações finais na carga que deveria voltar para Harwich.

Sealand vista de baixoUm ponto minúsculo no horizonte pressupunha a chegada da embarcação e um relance nos binóculos confirmou a sua presença iminente. Envergámos novamente os nossos coletes salva-vidas, Joe (que já estava em Sealand por três semanas) e eu preparamo-nos para a descida sobre a embarcação oscilante mas que agora estava lastrada com a habitual safra de marisco. Um dos motores a gasóleo do guincho despertou e despedi-me de Michael. Depois, sentei-me na cadeira vermelha e deixem o resto “acontecer”. Só tinha que saltar no momento certo sobre o barco balouçante em baixo. Seguindo-se rapidamente Joe e depois os sacos de transporte, acenámos e Michael concluiu a manobra do guincho. Rumámos para o porto, agora com os motores a um ritmo ligeiramente mais acelerado.

A viagem para Sealand havia sido repleta de atividade. O regresso foi igualmente atarefado mas, desta vez, com o acondicionamento e a preparação do marisco para mais fácil descarga e inspeção pelas autoridades no porto de Ha’Penny. Com o Sol brilhante e as águas apinhadas com todo o tipo de tráfego marítimo, Sealand tornou-se novamente num ponto no horizonte e os pormenores dos contornos de Harwich tornaram-se cada vez mais nítidos.

Em breve estávamos dentro do porto. Os cais estavam lotados com viandantes e outros. Conforme atracávamos, muitos, novos e velhos, perscrutavam curiosos sobre os nossos propósitos mas as caixas de peixe diziam tudo.
Estou certo que poucos poderiam imaginar onde estivemos de facto!

David Blizzard.

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